Um Cabaré Dionisíaco: Dzi Croquettes
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Amir Labaki
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Eles eram treze e se batizaram “Dzi Croquettes”. Menos de quatro décadas depois de marcarem, de forma meteórica e libertária, a cena brasileira em plena ditadura militar, ficaram apenas cinco para nos contar a história. Ou melhor, sete, com os codiretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez, em seu documentário de estreia, a partir de hoje nas salas, após conquistarem os prêmios de júri e público tanto no Festival do Rio quanto na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado.
“Dzi Croquettes” é um acontecimento. Jamais será possível pensar a história da cultura e dos costumes do país durante o regime militar (1964-1985) deixando de lado a trupe gay, em todos os sentidos, liderada por Wagner Ribeiro e Lennie Dale. Simples assim.
Tatiana Issa conta de dentro a história daquela irreverente “família” pois de certa forma também é a dela. Seu pai, o cenógrafo Armênio Issa (1950-2001), trabalhou na equipe técnica do grupo entre 1976 e 1980. Nas memórias de Tatiana, pontual e delicadamente inseridas na narrativa, eles foram os “palhacinhos” de sua infância.
Ao lado dela, Tatiana tem o privilégio da parceria de um co-roteirista e montador também de grande talento, Raphael Alvarez. O resultado é um documentário eletrizante, que articula com muito engenho o incrível material de arquivo dos “Dzi” com depoimentos sempre no ponto de seus cinco protagonistas ainda vivos e dos companheiros de viagem.
Um dos mais lúcidos depoentes, Benedicto Lacerda, um dos “Dzi” de primeira hora, atualmente guia turístico internacional, acerta na mosca ao explicar a fórmula explosiva do grupo como uma mistura das linguagem do cabaré e do Carnaval. O cabaré relido pela Broadway de Bob Fosse e o carnaval dos homens travestidos de mulheres mas não travestis, com pêlos e músculos bem à mostra.
A linhagem de Fosse chega ao grupo graças a Lennie Dale (1934-1994). Talento prodígio, “enfant terrible” dos musicais da Broadway, Lennie foi descoberto e trazido para o Brasil, no começo dos anos 1960, por Carlos Machado. Causou furor, tanto na música como na dança. Balançou o coreto da “bossa nova” e influenciou muito da música popular que se seguiria, da primeira Elis a Gilberto Gil, para não falar, um pouco depois, dos Secos & Molhados e das Frenéticas (três das quais, Leiloca, Lilika e Regina Chaves, tietes inseparáveis do grupo).
A marca de Lennie é ainda mais notável no teatro musical carioca e nos musicais da Rede Globo. “Eu nunca vi ninguém dançar como Lennie”, testemunha ninguém menos que Liza Minelli, sua amiga e fundamental madrinha pelos palcos do mundo. “Ele é um de meus ídolos”, reconhece a estrela nas telas de “Cabaret” (1972), de Bob Fosse – claro.
Liza é uma das grandes estrelas que impulsionaram a carreira internacional dos Dzi Croquettes na Europa entre 1973 e 1976, depois de passarem como um furacão pelos palcos do Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo uma breve parada por intrusão da censura. Foi dela o empurrão essencial para o sucesso da primeira temporada parisiense, carregando para um espetáculo a imprensa e amigos como Omar Shariff, Catherine Deneuve, Marisa Berenson e Valentino.
A outra foi Josephine Baker (1906-1975). Pouco antes de morrer – como queria, em pleno espetáculo –, “La” Baker pediu ao diretor do teatro no qual se apresentava em Paris que gostaria de ser substituída, quando se fosse, pelo show dos Dzi Croquettes. Assim se fez, salvando-os de um mal-sucedido tour pela Itália e consolidando-o como um fenômeno teatral na careta França de Giscard d’Estaing.
Mas as reais estrelas do filme são os fabulosos treze: Wagner Ribeiro, Lennie Dale, Bayard Tonelli, Benedicto Lacerda, Carlinhos Machado, Ciro Barcelos, Cláudio Gaya, Cláudio Tovar, Eloy Simões, Paulo Bacellar (Paoletti), os irmãos Reginaldo e Rogério de Poly, Roberto de Rodriguez. A combinação de seus variados talentos, em música, dança e artes plásticas em uns, teatrais e cômicos em quase todos, é fartamente demonstrado por trechos de seus espetáculos, ainda hoje hilários e moderníssimos.
A primavera dos Dzi Croquettes durou de 1972 a 1976, quando um retorno polêmico a Bahia catalisou uma briga que se provou definitiva entre Lennie Dale e Cláudio Tovar. Ficaram nove, outros entraram (entre os quais o jovem Jorge Fernando), novos espetáculos se sucederam mas o encanto havia mesmo se quebrado.
Mas a magia continua lá, nas imagens e sons que nos ficaram de seus espetáculos, nas memórias de quem os assistiu em carne, suor e testosterona. Agora, basta ir a um cinema perto de casa. Os Dzi Croquettes voltaram. Entre nesta festa.
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16/07/2010
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