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Nas telas, Birmânia: urgente!
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Amir Labaki
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Num intervalo de dez dias, um mesmo filme saiu duplamente vitorioso em dois dos principais festivais europeus de documentários: o CPH:DOX de Copenhague e o IDFA de Amsterdã. Anote o título: “Burma VJ – Reporting From a Closed Country” (Burma VJ - Noticiando de um País Fechado), do cineasta dinamarquês Anders Ostergaard. Tanto na Dinamarca quanto na Holanda “Burma VJ” venceu as competições internacionais e as disputas para filmes ligados aos direitos humanos. Nenhuma surpresa, nenhum exagero. Ostergaard, que antes retratara Hergé em “Tintim e eu” (2003), lançado aqui no É Tudo Verdade, realizou o documentário mais urgente do ano. É cinema militante dos bons.
“Burma VJ” radiografa o trabalho clandestino dos jornalistas audiovisuais do coletivo A Voz Democrática da Birmânia (DVB, na sigla inglesa). Devemos a esse grupo de cerca de trinta repórteres as principais imagens da repressão política pela ditadura militar no poder na atual Mianmar. Você lembra das marchas de monges budistas ou da execução do repórter japonês, Kenji Nagai, que vimos em setembro do ano passado na CNN e no telejornais? Agradeça ao DVB.
Ostergaard estrutura a narrativa a partir de um membro do grupo hoje exilado por segurança na vizinha Tailândia. Para evitar novas represálias e viabilizar novas incursões no território birmanês, sua identidade é camuflada sob o apelido de “Joshua”. Ele reconstitui o modo de atuação do DVB: câmeras escondidas em sacolas ou ocultas nas axilas, fitas contrabandeadas para o exterior, um centro de difusão por satélite em Oslo, na Noruega.
A narração em off de “Joshua” cimenta os registros de conflitos à quente e as reencenações de seu trabalho cotidiano. Assiste-se a “Burma VJ” como a um thriller documental de ritmo febril, algo próximo do cinema de Michael Witterbottom (O Caminho para Guantánamo). É o velho e bom documentário engajado, cinema-punho da melhor qualidade: a pressão internacional sobre os tiranos de Mianmar vai aumentar.
Um representante de outro gênero catalisado pela revolução digital, o documentário familiar, arrebatou o Prêmio Especial do Júri de IDFA 2008: “Forgetting Dad” (Esquecendo papai), co-produção germano-americana dirigida por Rick Minnich e Matthew Sweetwood. Em 1991, o pai de Rick perdeu toda a memória duas semanas depois de um trivial acidente de carro na saída de um shopping. Os mais exaustivos exames médicos não localizaram qualquer razão orgânica que justificasse amnésia tão radical.
Os pais de Rick há muito já estavam separados mas as memórias familiares foram extensivamente preservadas por filmes domésticos. Coube à nova família do Rick sênior viver o cotidiano de um homem adulto, da noite para o dia, tornado uma nova criança. Outra separação não tardou, com o velho pai reconstruindo à distancia de todos uma nova vida.
Há anos sem vê-lo, Rick Minnich sai como um detetive em busca de explicações para a amnésia acidental e para o afastamento exigido pelo pai. “Forgetting Dad” lembra, assim, “33” de Kiko Goifman, inserindo-se no modelo dos “documentários de busca” definidos pelo crítico Jean-Claude Bernardet.
Entrevistas com parentes, pesquisas a prontuários e consultas a velhos jornais aumentam o leque de hipóteses. A amnésia foi sempre uma farsa? Se sim, por quê? Foi apenas passageira? Houve uma recusa a tratamento? Há algo no passado que justifique o auto-exílio paterno? Ou seu pai é apenas uma vitima em meio a uma saraivada de recriminações familiares?
É também em torno de uma busca que se constrói a produção holandesa “Boris Ryzhy”, que valeu o prêmio de melhor média-metragem a Aliona van der Horst. Ryzhy foi um poeta russo de Ekaterimburgo que em 1991, aos 27 anos cometeu suicídio, deixando mulher e filho pequeno. Aliona felizmente está mais interessada em reconstruir sua vida do que sua morte. A irmã dele a ajuda a refazer-lhe os passos. As pistas principais encontram-se, porém, nos vestígios deixados pelo próprio Ryzhy: escritos, vídeos domésticos, sua leitura dos próprios poemas.
“Boris Ryzhy” não tenta forjar um mártir ou um novo gênio póstumo. É um generoso retrato de um homem comum que se fez poeta, viveu e se cansou do que viu. A partir de um personagem tão trágico, num país tão marcado por exageros, a contenção de Aliosa é a chave de um filme tão simples quanto belo.
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05/12/2008
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