Onde está João?
Amir Labaki   
A recusa por João Gilberto de conceder autorização para uso de imagens suas, fixas ou em movimento, não faz justiça ao belo trabalho de pesquisa e curadoria da exposição “Bossa na Oca”, aberta nesta semana. O resultado é outra história manca da Bossa Nova.

João não merece exilar-se na invisibilidade. Os três shows que fará no Brasil em agosto, dois em São Paulo, outro no Rio, devolvem-no fugazmente à cena. Mas mostras como a da Oca tem uma importância didática ímpar. Uma nova geração de brasileirinhos aprenderá com ela a história de um dos grandes movimentos culturais do país da segunda metade do século 20. A lição infelizmente ficará incompleta.

A importância capital de João Gilberto é registrada inúmeras vezes durante o percurso da exposição, aqui numa foto ainda do tempo dos Garotos da Lua, acolá numa gravação de época de “O Pato”, seguidas vezes em depoimentos de colegas. Mas fica difícil captá-la devidamente sem sua presença, sobretudo numa mostra audiovisual por excelência. “Bossa na Oca” é sobretudo um documentário fragmentado em instalações, uma pista do filme que ainda nos falta sobre a Bossa Nova, apesar de tentativas recentes como “Coisa mais linda” (2003), de Paulo Thiago.

Há dezoito anos Ruy Castro – mais uma vez ele – ofertou-nos em livro a narrativa definitiva sobre o movimento do amor, do sorriso e da flor, em “Chega de saudade” (Companhia das Letras). Ruy teve o privilégio de contar com um João Gilberto muito mais cooperativo. Tomara que algum cineasta conquiste no futuro próximo a mesma confiança.

A ausência de João é ensurdecedora especialmente no primeiro andar da Oca, que exibe três documentários curtos sobre os próceres do movimento. Miguel Faria Jr. apresenta uma versão de bolso de seu tocante filme recente sobre Vinícius de Moraes. Dora Jobim abre o baú da família, com fotos desconhecidas e lindos trechos de correspondência, para um retrato íntimo de seu avô Tom em “Vou te contar”. Belisário Franca reedita sua série “7 vezes Bossa Nova” para um esclarecedor mergulho antropológico.

João Gilberto é, por sua vez, representado por um cubo silencioso negro (uma câmera anecóica, isto é, sem eco), criado por um dos curadores, Marcello Dantas. É, antes que uma pausa didática sobre o papel do silêncio no método joãogilbertiano, uma dolorida metáfora sobre o sumiço voluntário do gênio.

O generoso arsenal audiovisual mobilizado, somando cerca de três horas de projeção, tem como pontos altos um documentário inédito do outro curador, Carlos Nader, e dez curtas assinados cinco por Haná Vaisman e cinco por Raquel Couto. Mais conceitual, “Clarão” articula-se a partir de entrevistas de arquivo, sobretudo com músicos do porte de Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo e Gilberto Gil, e novos depoimentos sonoros de especialistas como Arthur Nestrovski, Hugo Suksman, José Miguel Wisnik, Nélson Motta e Zuza Homem de Mello.

Num depoimento em off, Tom Jobim resume lindamente o momento pré-Bossa Nova em que se formou: “Eu venho de um tempo em que tudo era negativo”. Nestrovski nota como João e Jobim trouxeram em comum “o mínimo que é o máximo”. É de Wisnik a certeira conclusão, classificando a Bossa Nova como “uma afirmação do Brasil moderno cosmopolita”, uma utopia que exige desde então que o país volte a correr atrás dela.

Os dez documentários curtos recuperam marcos como a montagem no Teatro Municipal do Rio, em 1956, da ópera “Orfeu da Conceição”, de Tom e Vinícius; no mesmo ano, a parceria preparatória para o movimento de Jobim e Billy Blanco na “Sinfonia do Rio de Janeiro”; o espetáculo de 1960 “A noite do amor, do sorriso e da flor”, realizado na Faculdade Nacional de Arquitetura do Rio; o show de 1962 no restaurante Au Bon Gourmet que reuniu pela primeira e última vez no mesmo palco João, Tom, Vinícius e Os Cariocas; o vendaval “Garoto de Ipanema”, lançada no mesmo show; e a apresentação em Nova York no Carnegie Hall.

Quatro dos curtas são breves e tocantes retratos: a parceria essencial entre Tom Jobim e Newton Mendonça (Desafinado); Johnny Alf, João Donato e Nara Leão. Dois depoimentos são especialmente iluminadores.

Ed Motta é certeiro em destacar que o estilo único de cantar de Alf estava “mais para Sarah Vaughan do que do para um banquinho e um violão”. Já Maria Bethânia não hesita em classificar Nara como “uma heroína do Brasil”. “Ela é tão importante quanto a batida do violão de João Gilberto”, frisa Bethânia.

Outra exposição, “Bossa’50”, será aberta na próxima terça no Pavilhão da Bienal. João nos deixará mais uma vez na saudade?

11/07/2008   

>> Colunas anteriores


Contato: labaki@etudoverdade.com.br





Home La Bocca della Verità