Che: estudo de marca
Amir Labaki   
A primeira imagem de “Personal Che”, documentário já em cartaz dirigido pelo brasileiro Douglas Duarte e pela colombiana Adriana Mariño, resume exemplarmente a pesquisa do filme. As mesmas paredes em Vallegrande, interior da Bolívia, que contemplaram o cadáver ainda quente de Ernesto Guevara, em 1967, tornaram-se hoje um rústico outdoor da poderosa mitologia desenvolvida a partir do Che. São frases e slogans em várias línguas, provando a globalização de uma marca que conota juventude e rebeldia.

A segunda e a última imagens mostram o corpo inerte do guerrilheiro, de olhos abertos e sem camisa, garantindo ao mundo que, sim, depois de três anos de paradeiro incerto, aquele era Che e ele estava morto. O recado é claro. Não se trata de outro documentário biográfico sobre Guevara mas sim de uma anatomia de seu mito póstumo, numa operação de desmontagem de mitologias contemporâneas à moda Roland Barthes, como certeiramente notou Pedro Butcher em sua resenha na “Folha”.

“Personal Che” cumpre esta promessa. É sintomático que venha à luz quase simultaneamente à mais empenhada produção ficcional sobre a ascensão e queda de Guevara, o épico “Che” lançado em Cannes há um mês e meio por Steven Soderbergh, já discutido nesta coluna. Um mesmo guia se distingue nestas duas excursões complementares: o jornalista americano Jon Lee Anderson, biógrafo recente de Guevara.

Anderson serviu de consultor ao filme de Soderbergh e é o mais brilhante entrevistado de Duarte e Mariño. São dele, seguido de perto pelo ensaísta britânico Christopher Hitchens, as análises que ordenam o caleidoscópio de flagrantes do mito Che colhidos mundo afora, da Bolívia a Alemanha, de Cuba a Hong Kong, dos EUA ao Líbano.

A desideologização contemporânea da figura de Guevara, explica Anderson, é que permite a “todo mundo ter seu Che”. Ei-lo, assim, na camiseta de um neo-nazi alemão, nas paredes de um renitente revolucionário e no altar doméstico de uma devota boliviana. “Che”, prossegue o colaborador de “The New Yorker”, “em qualquer lugar e em qualquer cultura, é um símbolo de rebeldia contra o estado das coisas".

Hitchens o complementa. Ao lado do mito Kennedy, Che seria o grande pioneiro da presente “era das celebridades globais”. Para tanto, um momento mágico: a foto tirada por Alberto Korda (1928-2001) no grande comício em Havana de repúdio à explosão no porto do navio belga “La Coubre”, que trazia armas para a recém-vitoriosa revolução. “É um momento único para um fotógrafo”, destaca Hitchens. Não é uma imagem de nada. É um pedaço de História. Drama. Luta”.

Aquela imagem fez-se icônica para ser explorada, política, religiosa e sobretudo comercialmente. A fórmula do publicitário e fotógrafo italiano Oliviero Toscani não poderia ser mais típica nem mais crua: “A melhor coisa que Che fez foi ser modelo para aquela foto”.

Como bem notou o crítico Ricardo Calil, se “Personal Che” reunisse apenas anedotas e entrevistas colhidas em vários países seria uma curiosa reportagem audiovisual e não um documentário em pleno sentido do termo. É o talento demonstrado por seus jovens diretores para, aqui e ali, problematizar seus contatos com os depoentes que eleva o discurso fílmico a outra patamar de complexidade.

Na Alemanha, dois militantes neonazistas vêem fazer água a comparação entre “os revolucionários nacionalistas” Hitler e Guevara quando são interpelados sobre o fato de ser Che ser um argentino que fez a revolução em Cuba e a buscou ainda na África e na Bolívia. “Os sul-americanos são muito homogêneos” é a pífia resposta oferecida.

Noutro momento, uma crente boliviana e seu jovem filho, que rezam por São Che, ficam silenciosamente perplexos diante da revelação por Duarte de que Che repudiou a fé e a religião em seus escritos. Um ancião boliviano, igualmente religioso, reage rispidamente quando perguntado como um guerrilheiro poderia fazer milagres. “Ele não era um guerrilheiro”, retruca, algo atônito.

A importância essencial do acaso para o documentário sorri ainda para Duarte e Marino numa rua de Nova Jersey, ao acompanharem num passeio o salvadorenho Douglas Fuentes, orgulhoso colecionador de um pequeno museu doméstico de imagens guevarianas. Um grupo de exilados cubanos o chamam para discussão ao vê-lo com uma camiseta com a foto de Che.

No momento em que o isolado Fuentes está mais fragilizado, uma jovem cubana vem socorrê-lo, defendendo sua liberdade de expressão – afinal, aquilo é a América.

“Personal Che” se destaca entre as estréias recentes de documentaristas brasileiros e sul-americanos também por sua rara ousadia de transcender as fronteiras nacionais. O paroquialismo é um dos grilhões de nossa não-ficção, sob a justificativa, não de todo enganosa, dos evidentes limites orçamentários à produção documental sul-americana. Eis aqui uma bela prova de que, na era digital, é possível ousar mais. Nada mais coerente, aliás, com o internacionalismo visceral do próprio Che – o homem, muito antes que o mito.

04/07/2008   

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