Os Stones à procura de abrigo
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Amir Labaki
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Assuma-se de saída: “Stones in Exile” (Stones no Exílio) é um documentário de encomenda de uma hora dirigido pelo promissor cineasta americano Stephen Kijac (Scott Walker – 30 Century Man) com produção executiva de Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts. Ainda assim, emplacou uma sessão especial na Quinzena de Realizadores de Cannes, em maio passado. Ok, um pouco de “star power” ajudou. Mas o filme vale uma visita, mesmo para quem, como eu, nunca foi da Igreja Stones.
De certa forma, “Stones in Exile” é o lado B de “Shine a Light” (2008), o grande show filmado por Martin Scorsese. Naquele filme, a performance era tudo. Scorsese fez o que pôde para capturar para a grande tela a magia dos Rolling Stones ao vivo. Foi afinal o que construiu a lenda e a mantém até hoje na era dos megaconcertos em estádios.
“Stones in Exile” é um documentário de entrevistas e de arquivo sobre o auto-exílio dos Stones no sul da França e nos EUA em 1972, fugindo de problemas com o fisco britânico. Houve muito sexo e drogas, claro, mas também rock’n roll. Este ficou registrado no primeiro álbum duplo da banda, “Exile on Main Street”, um fiasco no lançamento que com o passar dos tempos ganhou status de obra-prima, não por coincidência relançado junto a esta espécie de “making of” muito após o fato.
Enquanto o palco era o centro do documentário de Scorsese, Kijac faz tudo girar em torno da mansão alugada por Keith Richards e sua então senhora, a modelo e atriz italiana Anita Pallenberg, perto de Nice, em Villefrance-sur-Mer, no sul da França. Além da motivação histórica, pois foi na “cave” do casarão que as gravações principais aconteceram, há um motivo estrutural. Durante seis meses, o fotógrafo francês Dominique Tarlé também morou lá, clicando a festa ininterrupta. Os Stones propiciam o som e Tarlé, as imagens, animadas com talento por Kijac. Eis essencialmente o filme.
Mas, sendo o auge da banda, não faltam registros fílmicos complementares. A maior parte é jornalística mas basta ver Mick Jagger aqui e acolá com a câmera amadora em punho para descobrir um rico arsenal de “home movies”. Além da música, claro, há os depoimentos. A formação do grupo na época extrapolava os cinco Stones mais conhecidos, Mick, Keith, Charlie, Bill Wyman e Mick Taylor (Ron Wood só o substituiria em 1974), abraçando ainda os saxofonistas Jim Prie e Bobby Keys e o pianista Nicky Hopkins. Todos contribuem com suas anedotas, acompanhados principalmente pelas memórias de Anita e Dominique. Destaca-se especialmente o terno testemunho de Jake Webb, filho de um amigo dos donos da casa que, aos oito anos e meio, perambulava dia e noite pela mansão, enrolando baseados e assistindo as “jam sessions” das caóticas madrugadas.
Stephen Kijac evita o tédio das “cabeças falantes” editando sobre as imagens o som das entrevistas. Um caso sucede rapidamente a outro, mimetizando o ritmo frenético daquela última primavera “hippie”. E o outono sempre chega. “Não havia um plano”, reconhece Mick. “Fomos acumulando material para usar um dia”. Até que a fonte secou. Os agregados se dispersaram e os Stones voltaram para a estrada, com excelente senso de oportunidade, pois cresciam os boatos de uma iminente batida policial à mansão devido ao consumo de drogas. Sobre seus hábitos da época, Keith Richards fala como coragem e sinceridade raríssimas entre seus pares.
Destino: EUA. Los Angeles era a praia habitual para a finalização dos álbuns da banda. Charlie Watts teve a sacada de convidar o cineasta e fotógrafo Robert Frank para clicá-los para a capa. Frank preferiu filmá-los em super-8. O filme resultante, “Cocksucker Blues” (1972), foi estrategicamente engavetado. Os contatos de algumas de suas imagens formaram o mosaico documental que envelopou o disco.
Entre as celebridades pop convidadas a comentar o álbum “Exile on Main Street, de Sheryl Crow a Will.i.am, é Scorsese que me parece ir mais direto ao ponto: “A sensação de estar exilado, de não poder voltar para casa, acho que esta música reflete isso”. Como reconhece Mick, “não há singles retumbantes”. Mas a imensa variedade de suas faixas transpira isolamento e liberdade. “Stones in Exile” também.
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23/07/2010
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